A pressão dos criadores sobre a economia bilionária dos direitos esportivos
A aquisição do The Overlap pela Global reflete uma transformação mais ampla: a desagregação dos direitos e a ascensão dos criadores como aceleradores de valor
A Global adquiriu participação majoritária no The Overlap, grupo de mídia no YouTube cofundado por Gary Neville, em um movimento que traz à tona um novo olhar sobre os criadores no contexto dos direitos esportivos.
O The Overlap, lançado em 2021, tornou-se um dos canais de futebol mais populares do Reino Unido. Hoje, soma mais de 38 milhões de visualizações mensais no YouTube e alcança 2,2 bilhões de views anuais em todas as plataformas. Seu principal programa, Stick to Football, reúne nomes como Neville, Jamie Carragher, Jill Scott, Roy Keane e Ian Wright.
A Global, uma das maiores empresas de rádio comercial da Europa, controladora de marcas como LBC e do podcast The News Agents, vê no The Overlap a chance de replicar o sucesso da Goalhanger, rede fundada por Gary Lineker que domina rankings de podcasts com The Rest Is…. O plano é expandir o Overlap para uma rede de mídia esportiva multiformato, ancorada no crescimento contínuo do YouTube como plataforma central de consumo.
O acordo também reforça como alguns ex-atletas deixaram de ser apenas talentos de transmissão para se tornarem operadores da própria mídia. Neville segue como copresidente do grupo. Ele já havia fundado, em 2017, a produtora Buzz 16. O discurso de que “nunca pensamos nisso como um negócio” soa cada vez menos convincente diante da escala atingida e do interesse estratégico de grandes grupos.
Em agosto do ano passado, analisei o acordo inédito que concedeu ao podcast The Rest Is... direitos de clipes da LaLiga. Ali, já ficava claro que a distribuição orientada por creators começava a remodelar a transmissão esportiva. A próxima transição é o efeito de rede, com ligas, plataformas e criadores operando dentro de um mesmo ecossistema.
Como bem resumiu Jo Redfern ao analisar o novo desdobramento da empresa de Gary Lineker, talento converte atenção em valor corporativo, e o IP de atletas-criadores deixou de ser um projeto de vaidade para tornar-se ativo.
Ainda há quem veja esse caminho como linear: criar um canal, atrair patrocinadores, monetizar anúncios. Para Redfern, isso é um erro. Casos como Sidemen e MrBeast mostram que o valor real está em escalar IP, formatos, produtos, dados e parcerias. A ponto de MrBeast, segundo rumores, planejar o IPO em 2026.
Isso não significa que qualquer IP de criador seja investível. A parceria faz sentido para a Global porque o Overlap já reúne escala, formatos testados e expansão para além do futebol, incluindo rugby e críquete. É um ecossistema, e não um único programa isolado. IPs que não combinam alcance multiplataforma, comunidade leal e formatos escaláveis tendem a ficar pelo caminho.
É aqui que a análise de Redfern atinge o cerne da questão: o que esse modelo quebra é a economia dos direitos. A entrada agressiva do YouTube no esporte e a movimentação da Netflix rumo ao podcast em vídeo não têm como objetivo diversificar catálogo, mas cercar o produto ao vivo com conteúdos imperdíveis antes e depois do jogo.
Isso pressiona avaliações, especialmente dos detentores de direitos do “meio comprimido”, espremidos entre gigantes globais e plataformas abertas.
Redfern sugere que os “mais experientes” já cogitam desagregação, pensando em adicionar feeds pesados de dados, criar camadas paralelas de conteúdo e incorporar criadores como aceleradores de direitos.
Ed Abis, da Dizplai, reforça essa leitura ao projetar 2026: acordos exclusivos estão morrendo. Um terço dos espectadores já passa tanto ou mais tempo com conteúdo de criadores do que com eventos ao vivo. Licenças tendem a migrar para microinfluenciadores com públicos de nicho, e não necessariamente para estrelas globais.
Este cenário de direitos fragmentados e distribuídos redefine radicalmente os próprios pontos de consumo. A centralidade do debate, portanto, deixa de ser “se uma plataforma substitui a outra”, para se tornar como cada uma atende a diferentes expectativas e comportamentos.
Simon Lane, da BBC Studios, relatou recentemente ter assistido a um jogo via o canal de Mark Goldbridge no YouTube, com atrasos, merchandising excessivo e uma condução improvisada. Mas para novas gerações que consomem esporte de forma irreverente e multitarefa, ela é “boa o suficiente” e, muitas vezes, preferível, ressalta Lane.
Não por acaso, em agosto passado, a Bundesliga concedeu de forma inédita os direitos oficiais a Goldbridge.
James Mortimer já havia apontado o racional econômico por trás disso: sai a lógica da taxa fixa de direitos, entra um modelo de monetização por ecossistema.
Ao abrir mão de parte da receita direta, ligas como a Bundesliga ganham algo mais valioso no longo prazo: dados, relacionamento e recorrência. Capturar engajamento em plataformas onde o público já está ativo permite criar ativos comerciais contínuos, prontos para patrocinadores e menos dependentes de um único cheque de transmissão.
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